segunda-feira, 30 de janeiro de 2012

A VITÓRIA DO AMOR SOBRE O PASSADO

Esta é uma estória que escrevi, em 1995, quando ainda era só uma adolescente sonhadora, foi para uma nota em Redação, onde a professora Jandemília pediu que escrevêssemos uma estória, livre. Então fiz essa A Vitória do Amor sobre o Passado, que agora transcrevo tal qual fiz naquela época.



CAPÍTULO I



 Letícia andava rápido, já eram sete e quinze da manhã. Chegaria novamente atrasada na escola para assistir o primeiro horário. Quem a visse, com seus passos rápidos e semblante sério, julgaria que estava aborrecida, mas, em verdade, vos digo que pensava em outra coisa.

 Enquanto caminha pela milésima  vez aquela ruazinha estreita, os seus pensamentos voam para a noite anterior, onde iremos encontrá-la diante de Lucas  a escutar, comovida, embora séria, as palavras desse jovem que por tanto tempo declarou-se seu amigo. Que era há seis anos? Apenas seu amigo! Que é agora? Um jovem apaixonado por aquela moça, já declarada tão bela da pequena cidade de Formosa.

Formosa é uma pequena cidade do interior paraibano. Com seus dez mil habitantes, não é muito conhecida pelas pessoas que moram na Capital, embora seja dotada de grandes prestígios dos que lá moram.

 Ao olharmos para Formosa podemos constatar que quem a batizou  com esse nome, o fez baseado nas suas ruas arborizadas, bem como nas suas casas e prédios de um rigor essencialmente tradicional e provinciano.

 Voltemos à Letícia que agora acaba de chegar no colégio. O porteiro a atende todo sorridente sem questionar o horário que ela estava chegando, caso fosse outra pessoa, certamente iria dizer: "- Olha a hora, amigo! A cama estava tão boa assim?"  

 Letícia subiu os degraus, que dava para a sala, correndo. Bateu na porta. O professor a atendeu levando , rapidamente os olhos ao relógio que marcava sete e vinte e três.

- Só mais sete minutos e você entraria apenas no segundo horário. - Comentou com um sorriso.

Ao sentar-se, Letícia procurou prestar atenção no que o professor falava, mas não conseguia, pois as palavras de Lucas soavam fortes aos seus ouvidos. Reconhecia que sentia-se inquieta. Mas por quê? Tantos rapazes já haviam lhe dirigido quase as mesmas palavras e nem por isso perturbava-se. Talvez fosse porque Lucas, sendo seu grande amigo, ela não esperava que justo ele  viesse confessar os seus sentimentos. 






CAPÍTULO II



 Deixemos Letícia interrogando-se a respeito desse assunto e vamos saber o porquê dela estar tão inquieta.

 Na noite anterior, Letícia encontrava-se em uma festa de aniversário de uma das componentes do conjunto Novo Alvorecer. A moça que completava anos, Gabriela, fez primeiramente um culto de ações de graças a Deus por mais uma primavera. Logo após o culto, os convidados dirigiram-se para o colégio que ficava há algumas ruas da igreja.

 Lucas e Letícia iam um pouco atrás. Conversavam sobre coisas banais até que, de repente, Letícia percebeu que Lucas partia para a questão dos sentimentos. Satisfez o seu desejo.

- Letícia, você acha que podemos amar mais de uma vez? - Lucas perguntou-lhe fitando seus belos olhos verdes nos de Letícia.

- Eu não sei. -Respondeu-lhe levando a vista para qualquer lugar.

- Deixe-me ver se consigo explicar melhor. Por exemplo, assim como o sol desponta e a noite ele se desfaz, nós sabemos que no dia seguinte ele voltará a nascer. Mesmo assim se dá aos nossos sentimentos.

- Desculpe-me Lucas, mas ainda continuo sem entender aonde você quer chegar.

 Ele lhe sorriu. Um sorriso tão belo que Letícia ficou admirada, pois não se lembrava de tê-lo visto sorrir assim.

- Ainda não? Pois bem, falarei de forma mais clara. Você acredita que uma jovem, após sofrer uma forte decepção amorosa, poderá voltar a crer no amor?

- Se ela tiver forças para superar essa decepção... - Letícia nesse momento baixou os seus  olhos. Lembranças de um passado triste veio-lhe à mente e sentia-se como que arrebatada para ele, esse tão cruel passado.


 Por que Lucas estava-lhe perguntando aquilo? O que ele queria saber ao seu respeito? Acaso não tinha ele conhecimento suficiente do seu passado? Tinha ele alguma intenção ruim? Todas essas e outras perguntas vieram-lhe à mente. Como se tivesse adivinhando o que ela pensava, Lucas disse:


- Pergunto isso, não para te magoar e te fazer voltar ao passado, mas sim, com a intenção de saber como vai o teu coração a respeito disso.


- E por que você quer saber como vai o meu coração? Ela olhou de uma maneira tão triste que Lucas perturbou-se. Ia lhe responder, mas já haviam chegado ao colégio. Lucas a olhou e disse:


- Ainda hoje quero falar com você sobre isso. Afastou-se, pois os rapazes do conjunto estavam chamando para tocar com eles.


Letícia foi ter com Adriana e Maria. Passaram a conversar sobre a festa da mocidade que estava prevista para o mês de novembro.


- Será uma festa maravilhosa. - Adriana comentou sorridente.


- Eu creio que será. Já foi confirmada a presença do cantor Estevão Jacinto. Ele canta tão bem, não é Letícia? Maria dirigiu a palavra para ela, pois havia percebido que não prestava muita atenção na conversa.


 E como poderia prestar atenção depois de tudo o que ouviu de Lucas?  Agora não tinha mais dúvida, ele estava gostando dela. Algumas irmãs da igreja, inclusive sua mãe, já haviam lhe despertado para essa possibilidade. Não quis acreditar porque julgava impossível ele gostar dela. Como resposta ela sempre respondia: "Que nada, ele só gosta de mim como amiga."  Mas bem lá no fundo do seu coração, algo lhe dizia que era verdade, e repreendia a si mesma pela suspeita.


- É verdade Maria, Estevão canta muito bem. - Levantando os seus olhos para Maria que cada vez mais se surpreendia com ela. - Já foi confirmada a presença do pastor Fernando, da cidade de Marí?


- Sim, respondeu Adriana.


Como que por impulso, Letícia olhou em direção ao conjunto e nesse momento Lucas olhava em sua direção. Seus olhos se encontraram. Letícia foi a primeira a desviar os olhos, ele, por sua vez, continuou a observá-la, ou melhor, foi o que fez durante a festa.


 Terminada a festa, Lucas aproximou-se de Letícia e comprometeu-se em deixá-la em casa. Ela esperou, pois já eram meia noite quando terminou a festa e era esquisito voltar sozinha. Minutos depois, ambos estavam, descendo aquela ruazinha estreita, a mesma que vimos Letícia subir para o colégio. 


 Lucas retomou o assunto.


- Letícia, não foi fácil pra mim ter que tomar essa decisão sabendo o que se passa dentro de você. Quero que saiba que verdadeiramente te amo. Deus, que conhece o meu e o teu coração, sabe que não minto. Não disse antes porque tinha medo de perder a sua amizade. Não me olhe assim, você sabe que a nossa amizade não continuaria a mesma. Tenho como prova o pobre de Ricardo que, conversando comigo, disse que se fosse hoje não cometeria a loucura de ter confessado o seu amor por você...


- Se é que foi "amor". - Disse interrompendo Lucas, a última palavra veio acompanhada de uma incredulidade muito grande.


- Bom, se era  amor ou não, eu não sei, só sei que ele sofreu um bocado. Por favor, não me interrompa, apenas ouça o que tenho aqui ( e levando a mão ao peito ) guardado por quase dois anos. Não sei que poder tem esse passado sobre você, Letícia. Quando te perguntei sobre a jovem que sofrera uma grande decepção amorosa, me referia a você. Será que não acreditas que um dia voltarás a amar alguém? Ou você pensa que todos os homens são iguais ao que te feriu? Não Letícia, eu te digo que não. O que mais me surpreende em você, é saber que ainda não entregastes, verdadeiramente, os teus conflitos interior a Deus. É isso mesmo, Letícia, por mais dura que seja a verdade. Letícia, minha querida, você não pode continuar vivendo do passado. Francamente te digo que, ainda que você não venha a me amar, ficaria, e  ficarei muito feliz em te ver livre dessas lembranças do passado. Lembre-se : " Todas as coisas cooperam para o bem daqueles que amam a Deus."


 Letícia o escutava de cabeça baixa. Cada palavra que Lucas falava tocava fundo em seu coração, sentia como que não fosse ele que falava, mas Deus falando por ele, pois só agora ela percebia que durante quase quatro anos mentiu pra si mesma. Mas como? Deves estar se perguntando, leitor curioso! Dizendo a si mesma que estava entregando seus conflitos interior a Deus, mas que na verdade nuca Ele havia recebido esses conflitos. Como Ele iria resolvê-los se a sua filha não permitia? Foi aí que, de repente, diante desse reconhecimento sentiu que lágrimas rolavam de seu rosto.


-  Você tem razão, Lucas. Continuo presa às minhas lembranças e só agora percebi  que nunca permiti que Deus viesse curá-las. Mas não é fácil Lucas, você ver todos os seus sonhos e planos caírem diante de seus olhos. Não sei em que isso pode, ou poderá me ajudar, só sei que tem me machucado muito. Por causa dessas tristes lembranças o meu coração se fechou . Quando penso que o meu coração está a desabrochar ao toque do amor, ele logo fecha-se receoso de sofrer outra desilusão... - Novas lágrimas brotam dos seus olhos.


- Mas todas essas coisas são momentâneas, Letícia, por mais que pareçam durar. Permita que Cristo entre em seu coração e remova essas lembranças dolorosas, só então você verá novamente o amor  brotar dentro de si. Deixe Cristo apagar com uma "borracha" chamada AMOR, todas essas coisas. Não foi à toa que Ele disse: "Confia no Senhor as tuas obras, e teus pensamentos serão estabelecidos." Confia, Letícia, naquele que nunca vai te deixar sozinha.


 Fez-se silêncio entre ambos. Já estavam próximos da casa de D. Ruth. Letícia sentia que Lucas queria falar mais alguma coisa.


- Lucas, sinto que você quer falar algo mais. -Esta frase saiu com dificuldades, pois seu coração estava a mil por horas.


Sem hesitação ele a olha nos olhos e diz:


- Viajo terça-feira para São Paulo.


 Sem saber por que, Letícia sentiu uma inquietação. Ia lhe dizer algo mais, no entanto, as palavras perderam-se na garganta, não passou de um simples gesto de surpresa.


Chegaram diante de uma bela casa que, embora não fosse grande, tinha seus compartimentos bem divididos. Em frente da casa existe um belo jardim, verdadeira paixão de D. Ruth, mãe de Letícia, que cuida muito bem do mesmo.


D. Ruth já os esperava em frente ao portão. Fez isto não por desconfiar deles, mas sim para não dar o que falar aos moradores daquela pequena cidade.


- Boa noite, D. Ruth. Vim trazer sua filha.  - Lucas disse com um sorriso forçado, porque por dentro ardia-lhe a dor de não ser amado, mas confiava em Deus, sabendo que se Ele o abençoasse, tudo acabaria bem.


- Boa noite, meu filho. Obrigada pela gentileza de trazer minha filha. E então, Lucas, é certo que você viaja mesmo  amanhã? - D. Ruth pergunta-lhe olhando para o relógio que marcava meia noite e quarenta e cinco. 


- Sim. Estava falando com Letícia a esse respeito. Bem, agora tenho que ir, amanhã, ou melhor, mais tarde passo por aqui. A paz do Senhor.


- A paz, Lucas. -Letícia responde.


- A paz, meu filho. - D. Ruth o cumprimenta.


 Lucas deu-lhes as costas e desceu novamente aquela ruazinha estreita. Enquanto isso, D. Ruth observa o semblante de sua filha que tinha os olhos fixos em Lucas. No que ela pensava? Francamente eu não sei, querido leitor, só Deus sabe o que se passou no interior dessa jovem que a fez tomar uma grande decisão em sua vida. A maior de todas elas.











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