Ela olha em volta, sabe que está a procurá-lo, não vai mais mentir pra si mesma, precisa vê-lo, apenas olhar, mesmo a distância, perceber como ele está.
Sim, ela o vê. Escorada na parede da loja em frente a dele, ela absorve a força de sua presença... É estranho, mas sente-se presa a ele, e só o fato de vê-lo faz com que se sinta inteira pela metade, como pode sentir aquelas coisas??!!! Inteira pela metade?
Sim, responde pra si mesma. Inteira por saber que ele é quem ela precisa e se encaixa perfeitamente em seus sonhos e pensamentos, pela metade, porque sabe que não pode tê-lo, não mais. Não depois do que lhe fez...
Então, por um descuido ( ou seria sabotagem inconsciente? ), ela se deixa descobrir! Ele a vê como um reflexo, simples assim, ele a sente por perto...
Naquele instante, como num filme, ela não vê e não ouve nada mais ao seu redor, seus olhos estão presos aos dele... E ela consegue ver tudo o que se passa em seu interior: dor, alegria, confusão e, sim, amor, puro e simples amor, ou seria o seu olhar refletido nos dele, como saber? Ela só sabe de uma coisa: precisa respirar, recobrar sua postura, sair dali...
Mas é tarde, ambos estão um diante do outro. Como isso foi possível?
Agora ela entendia como uma presa se sentia diante de seu predador, totalmente impotente e mesmo assim, viva, quente e sem forças... Seu coração estava enlouquecido. Meu Deus, o que devo dizer? pensa aflita.
- Oi?! - ele diz.
- Oi.
E ficam assim, por um tempo, se avaliando, vendo o que aquela distância imposta tinha feito aos dois.
- Como você está? - Júlio pergunta, olhando bem em seus olhos. Ele precisa saber se ela sentiu aquele vazio, aquela dor que ele sentia naqueles dez meses em que ela esteve fora.
- Bem... quero dizer, estou indo bem... acho... - Elisa responde, provocando um leve sorriso nele, o que a deixa tensa, pois como explicar que durante todo aquele tempo ela pensou nele, ela que provocara toda essa distância?
Um silêncio caiu sobre eles. Mas pra quê palavras quando seus olhos já dizem tudo?
- Eu... - Elisa tenta dizer - eu, sinto muito, quero dizer...
- Sei - ele a silencia com o polegar em seus lábios e, sem desgrudar os olhos de seu belo rosto, declara - você não tem ideia do que fez comigo, não imagina o inferno em que vivi por esses meses, mas, quer saber a coisa mais louca nisso tudo? É que eu fiquei te esperando, pois é, esperando você voltar a ter juízo e me explicar o que raio aconteceu, e nesse tempo inteiro me obriguei a ficar distante, te dar espaço, mas a vontade mesmo era pegar um avião e te encontrar lá em Amapá e te trazer de volta.
- Desculpa, mas não sabia o que fazer, então, quando surgiu a oportunidade de trabalhar como enfermeira lá fui embora... Pensei que assim, longe de você, eu poderia pensar melhor... -
Elisa tentava em vão controlar as batidas de seu coração, ainda mais que os dois começavam a chamar a atenção de quem passava, os clientes que ele simplesmente deixou esperando estavam lá olhando e cochichando.
- Então, o que decidiu durante essa fuga?
- Não fugi... bem, talvez, mas só queria um tempo... Você me assustou um pouco com todo esse amor... Sabe, nunca acreditei no amor, então chega você, mais parecendo um gângster e seus capangas, ferido em minha enfermaria, tentando me dar ordens e põe tudo de pernas pro ar... Pensei: esse cara é louco, vou transferi-lo para a ala psiquiátrica, deve estar tendo um surto psicótico.
Ele gargalhou, lembrando que naquele dia ela parecia muito senhora da situação, não parecia nem um pouco assustada.
- Tem certeza que foi assim mesmo, pois você é quem me pôs medo com todo aquela aparato, seringas, curativos, e instrumentos cirúrgicos, além do que me deu uma droga e apaguei geral...- Continuou rindo, provocando o riso da pequena platéia que se formou.
- Ora, não seja dramático!! - respondeu Elisa - Precisei fazer aquilo ou o hospital viria abaixo com seus berros. Mas, em nenhum momento imaginei que me apaixonaria por você.
- E nem eu por você. - Ele agora a tinha enlaçado pela cintura e a mantinha em seus braços. - Você me enfeitiçou, só pode! Desde aquele dia passei a arranjar desculpas pra aparecer no hospital...
- Verdade, respondeu Elisa sem se conter e sorrindo. Você pode ser muito insistente quando quer...
- Sou um homem de negócios, minha querida, quando vejo uma excelente oportunidade, não perco tempo.
- É mesmo? Então fui uma excelente oportunidade?
- Não, você foi, melhor dizendo, é minha maior aquisição, isto é, se aceitar meu pedido de casamento que te fiz a dez meses...
Então todos riram ao perceber do que se tratava, Elisa havia fugido da resposta ao pedido de casamento de Júlio.
- Sim. Ela respondeu simplesmente.
- Sim, o quê? continue...
- Sim, eu aceito me casar com você!!!
Ele a abraçou e beijou , feliz por ter esperado.
- Vamos combinar que as próximas respostas você me dará com até três dias de espera, certo?? - Ele sugeriu ainda beijando-a no rosto enquanto ela sorria feliz e com o coração leve.
- Sim, agora que acredito no amor, tudo ficará mais simples, meu anjo.
Todos aplaudiram o desfecho do jovem casal e, depois de receberem os parabéns, Elisa e Júlio se despediram de todos e foram comunicar às famílias que dali a três meses estariam se casando.

Nenhum comentário:
Postar um comentário